Tendências em Serviços Ecossistêmicos é a nova Iniciativa empresarial lançada pelo GVces

O ciclo 2013 da TeSE irá abordar dois temas: mensuração e valoração de serviços ecossistêmicos e gestão responsável de recursos hídricos. 18/02/2013
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Bruno Toledo

Carro-chefe das exportações brasileiras, a produção agrícola depende de fatores como a regularidade na vazão dos rios, de solos férteis protegidos contra a erosão, de água disponível para irrigação, sendo que as florestas e matas ciliares desempenham papel fundamental na garantira desse tipo de benefício à agricultura. Exemplos como este se repetem aos montes na relação entre serviços ecossistêmicos e o bom desempenho da economia, mas só recentemente governos, empresas e sociedade civil começaram a demonstrar maior consciência de sua importância e da necessidade de lidar com eles de modo mais sustentável. Uma das maneiras de racionalizar o uso dos serviços ecossistêmicos e dos recursos naturais é Incluí-los na conta da economia. Mas como valorar estes serviços e como realizar sua gestão?

Um primeiro passo é compreender como os serviços ecossistêmicos estão relacionados com as operações da empresa. Isso permitirá identificar os impactos e as dependências da organização em relação a estes serviços. Para apoiar as empresas nesse desafio, o GVces criou a iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), em parceria com a Conservação Internacional (CI-Brasil) e a The Nature Conservancy (TNC).

Lançada em 6 de fevereiro no Salão Nobre da FGV-SP, a iniciativa visa desenvolver estratégias e ferramentas destinadas à gestão empresarial de impactos, dependências, riscos e oportunidades relacionados a serviços ecossistêmicos. Além de promover uma primeira conversa entre representantes de empresas sobre o assunto, o evento de lançamento apresentou o projeto e os temas que serão abordados durante o Ciclo 2013: mensuração e valoração dos serviços ecossistêmicos, e gestão responsável dos recursos hídricos.

Serviços ecossistêmicos

O tema vem ganhando espaço no mundo empresarial de modo similar ao que aconteceu com a agenda climática na década passada. “Há dez anos, as empresas começaram a olhar para a questão das emissões de gases de efeito estufa e, através de incentivos positivos, conseguimos avançar bastante no engajamento empresarial em clima”, lembra Mario Monzoni, coordenador do GVces.

A experiência empresarial em clima mostra que o caminho para o envolvimento corporativo em serviços ecossistêmicos também passa pela construção de incentivos positivos. Para Monzoni, “os instrumentos tradicionais de comando-e-controle não dão conta do desafio dos serviços ecossistêmicos – precisamos desenvolver ferramentas econômicas para valorá-los junto às empresas”.

Um desafio para o esforço de valoração é definir como mensurar os serviços ecossistêmicos. Ao contrário das emissões de gases do efeito estufa, que podem ser contabilizadas através de uma unidade estabelecida, os serviços ecossistêmicos em geral não podem ser contabilizados de modo uniforme. Mensurar é um ponto crucial nesse processo, como aponta Renato Armelin, coordenador do programa Sustentabilidade Global do GVces. “Um dos produtos que a TeSE espera desenvolver ao final de seu primeiro ciclo é um conjunto de diretrizes para a mensuração e valoração de serviços ecossistêmicos.” A construção dessas diretrizes será feita de forma conjunta com as empresas-membro, e aproveitando o estado da arte sobre o tema.

Referências

Algumas experiências internacionais trazem insumos importantes para a TeSE, como aponta Helena Pavese, diretora de relações corporativas da CI-Brasil. “Podemos destacar o Teeb [ The Economics of Ecosystems and Biodiversity ], que aborda a importância da biodiversidade, os riscos acarretados pela perda dos recursos naturais e a necessidade de utilizar de forma sustentável estes recursos e serviços, inclusive como uma forma de alavancar os negócios”.

Para Pavese, um aspecto importante para que as empresas em geral percebam a importância dos serviços ecossistêmicos é a inserção da questão econômica no debate. “A introdução de questões financeiras e econômicas é um passo importante para que se chegue a uma linguagem comum, que apoie a internalização desse tema nas empresas – claro, sem ignorar outros valores que estão envolvidos neste tema, como cultura e sociedade”.

Ter consciência dos seus impactos e das suas dependências com relação aos serviços ecossistêmicos pode ser uma grande oportunidade para conhecer mais sobre as operações da empresa, além de representar uma oportunidade de negócio em médio e longo prazo. “Algumas organizações já perceberam que, se você considerar os serviços ecossistêmicos na conta, os produtos verdes têm mais valor do que os produtos business as usual”, aponta Helena Pavese. “Hoje, quem paga a conta desses serviços somos todos nós, mas uma hora a sociedade vai começar a compartilhar essa conta com as empresas, que precisarão se adaptar para não perder nichos e setores de mercado”.

Gestão de recursos hídricos

Outro ponto que o projeto abordará em seu primeiro ciclo é o da gestão responsável de recursos hídricos, um tema difícil para as empresas, como aponta Albano Araújo, coordenador de estratégia de água doce da TNC. “Um desafio que encontramos ao trabalhar a questão dos recursos hídricos com as empresas é como reconhecer aquelas que conseguem utilizá-los de forma adequada”. Uma iniciativa internacional bem sucedida, que envolve a TNC, é a da Alliance for Water Stewardship, um programa para reconhecer e recompensar usuários e gestores de água que conseguem minimizar seu consumo e seus impactos sobre os recursos hídricos.

Em geral, as empresas não têm consciência da dimensão do seu consumo de água e de como isso impacta na distribuição geral desse bem. Para Araújo, “não existe escassez de água potável pelo ponto de vista da sua existência limitada, e sim por outros fatores, como desperdício, má distribuição ou mesmo aspectos econômicos”. Isso implica mudar a forma como a água é consumida, o que mexe diretamente nas práticas dos grandes consumidores – indústria, agricultura e mesmo a produção energética. Reside aí uma oportunidade de negócio. “Um grande benefício da TeSE será mostrar às empresas a sua real dependência com relação a este recurso, de forma que elas entendam também a realidade da dinâmica da água e a possibilidade de consumir água de outras maneiras, o que pode resultar inclusive em ganhos econômicos diretos para as empresas”.

Ciclo 2013

Os trabalhos da TeSE neste ano serão organizados em duas fases. No primeiro semestre, três oficinas irão discutir e trazer o estado da arte dos dois temas - mensuração e valoração dos serviços ecossistêmicos, e gestão responsável de recursos hídricos - de forma a construir uma base de conhecimento comum entre as empresas. No segundo semestre, dois grupos de trabalho (GTs) estarão dedicados à construção dos produtos esperados para o final do Ciclo 2013.

Entre as duas fases, as empresas-membro participação de uma viagem de campo, que servirá para explorar a integração não apenas dos temas do projeto, mas também com as outras Iniciativas Empresariais coordenadas pelo GVces ( EPC, ID Local , ISCV).

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